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A política de juros vai tornar a dívida pública insustentável

Publicada em 14/02/22 às 11:07h - 22 visualizações

por Diário de Pernambuco


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A política de juros vai tornar a dívida pública insustentável
 (Foto: Yasuyoshi Chiba/AFP)
Diante do silêncio geral, chamo a atenção para o modo autossuficiente como o Banco Central brasileiro vem conduzindo sua política monetária, agora que está investido de uma autonomia praticamente sem limites. Os juízes do Supremo Tribunal Federal (STF), ao decidir as questões que lhe são submetidas, costumam dizer que têm o privilégio de errar por último. Ganharam agora a companhia de uma outra instituição para desfrutar deste duvidoso privilégio.

A pandemia desencadeou mudanças importantes no modo como as pessoas trabalham e consomem, afetando os sistemas de produção e o funcionamento das cadeias logísticas. Tudo isto resultou em perturbações nos mercados de bens e serviços. Assim que as economias foram voltando à normalidade, os sistemas de preços se desarranjaram. Depois de muitos anos de moderação, a inflação voltou em todo o mundo.


No Brasil, a inflação fechou 2021 em 10%, mesmo com a economia praticamente estagnada. Nossa renda por habitante hoje, em termos reais, está abaixo do nível de 2013 e o desemprego oscila em torno de 14%, o terceiro pior índice na lista das 42 principais economias do mundo. Não é preciso ter formação de economista para reconhecer que nossa inflação não é resultado de excesso de demanda em relação à oferta, desequilíbrio que deve ser combatido por meio da elevação dos juros. Nossa inflação se deve ao aumento dos preços do petróleo, que são formados no mercado internacional, e dos custos de energia elétrica, devido à estiagem, além da desvalorização do real e da elevação dos preços dos alimentos em razão da demanda externa. Nada que a alta dos juros básicos pode resolver.

Esses mesmos fatores estão produzindo inflação em toda a parte. Nos Estados Unidos, a alta dos preços ao consumidor chegou a 7,5% ao ano, no Reino Unido 5,4%, e na zona do euro, em média, 5%. Estamos diante de um fenômeno global que tem tudo para ser transitório. Todos esses países estão iniciando um ciclo de aperto da política monetária, mas em termos completamente diferentes dos padrões de nosso Banco Central.

Os Estados Unidos vão elevar seus juros básicos de 0,25% para 0,50% proximamente e promete alguns aumentos do mesmo valor ao longo de dois anos, até chegar a 2% ao ano. O Banco da Inglaterra está se preparando para também subir os seus juros de 0,25% para 0,50%. O Banco Central Europeu ainda hesita em elevar os seus juros, próximos de zero, com receio de interferir na recuperação das suas economias. Em todos os países, as autoridades monetárias mantêm-se cautelosas, porque ninguém compreende completamente os atuais movimentos das economias e porque temem que os eventuais erros da política monetária causem perdas de renda e de emprego desnecessariamente.

Essas preocupações passam longe de nossas autoridades. De janeiro de 2021, quando os juros estavam em 2%, até agora, os juros no Brasil subiram para 10,75%, um peso adicional de 8,75%. No último comunicado oficial, estão anunciadas novas elevações, até chegarmos a 12%, talvez a maior taxa de juros de todo o mundo.

A economia brasileira não vai crescer mais do 0,3% em 2022. Não haverá, portanto, nenhuma pressão possível sobre a demanda e os preços. Em compensação, os custos da dívida pública, em virtude dos novos juros, serão onerados em cerca de R$ 400 a R$ 500 bilhões. A política de juros, sem necessidade, está empobrecendo ainda mais o país e vai tornar a dívida pública insustentável. Erros têm consequências, mas não temos mais como evitá-los.

Não sou adepto das teorias conspiratórias tão ao gosto das esquerdas e das direitas que parecem dominar o ambiente político. Acho que as autoridades estão simplesmente errando sem nenhum propósito maligno. Há alguns anos, lendo um artigo do Delfim Neto a respeito de decisões do Banco Central, eu me deparei com um pensamento a que ele se referia como o axioma de Brainard: "Quando você não sabe bem o que está fazendo, faça bem devagar". É exatamente o que fazem hoje todos os países e o que o nosso Banco Central, infelizmente, não está fazendo.




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